Tutti Buona Gente em São Paulo



Escrito por Nelson Natalino às 16h07
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Todos os Pecados Perdoados

Eu estava estudando na Itália, mas o tema de maior interesse, aquele sobre o qual me debruçava com verdadeira afeição, era Antonella, minha pequena e saltitante romana. Um dia, tivemos uma discussão acerca de algumas grosserias que, segundo ela, eu cometera, e ela rompeu nossa ligação.

 

Dias depois, telefonei-lhe e convidei-a para assistirmos à Pequena Missa Solene de Rossini, que estaria sendo apresentada na Parrocchia dell'Assunzione, no Tuscolano. Depois de alguma hesitação e surpresa - ela não esperava uma ligação minha, ainda mais sem referências a nosso impasse -, ela aceitou. Antonella amava a música de tal forma que eu não tinha como saber se a aceitação do convite significava um perdão ou a mera impossibilidade de recusar a Missa de Rossini.

 

Caminhamos lado a lado, sem nos tocarmos. Tive todo o cuidado em ser verbalmente o mais gentil com ela, já que as circunstâncias não permitiam nada além. Quando a Missa começou, ela se riu. Disse em meu ouvido que achara engraçada a pobre instrumentação que Rossini utilizara. Passaram-se alguns minutos e notei que Antonella estava muito emocionada. Abracei-a e ela apoiou sua cabeça em meu peito. Enquanto  lhe acariciava o rosto, sentia suas lágrimas molhando meus dedos. Sabia que estava perdoado.

 

Rossini começou a escrever música muito jovem. Era prolífico e compunha, em média, duas óperas por ano. Então, aos 37 anos - enfadado do freqüente contato com cantores temperamentais e diretores de teatro ainda piores -, parou de trabalhar seriamente com música, tornando-a um divertimento pessoal. Riquíssimo e célebre, dedicou-se ao lazer e a um irônico e gentil convívio com todos, itens nos quais era mestre. Costumava promover freqüentes festas em sua casa. Ali, bebia-se champanhe, vinho, comia-se esplendidamente e ouvia-se música. Às vezes, Rossini apresentava ao piano peças de um certo compositor anônimo... O compositor ressurgiu surpreendentemente aos setenta e poucos anos publicando duas  extraordinárias peças sacras - o Stabat Mater e a Petite Messe Solennelle (Pequena Missa Solene) -, além de peças para piano. O compositor agrupou essas obras sob o título genérico de Péchés de vieillesse.

 

Fomos a meu apartamento, onde fizemos amor e dormimos como fazem os casais. Quando acordei, não vi Antonella. Havia somente um bilhete em italiano sobre meu criado-mudo. Meu amigo, fomos engolfados por um dos "pecados da velhice" de Rossini. O que aconteceu não tem nada a ver com nossa situação. Não me procure mais. Antonella.

 

Nunca mais vi minha pequena Antonella. Porém, ontem, recebi de um amigo uma gravação da Missa de Rossini. Comecei a ouvi-la, mas logo interrompi a audição por pudor. Deixei todos dormirem para religar o aparelho de som. Então, enquanto minha mulher dormia, ouvi toda a gloriosa Missa, imóvel, sentado no escuro, sentindo a presença de minha adorável Antonella e de uma vida perdida.



Escrito por Milton Ribeiro às 13h29
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Breve diário do desencanto

 

Suas velhas palavras me ferem de um jeito novo.

Estoicamnete, ofereço a outra face.

Deixar você me magoar é um jeito lícito de tê-la.

Dói, mas foda-se.



Escrito por Fal Vitiello de Azevedo às 18h19
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Breve diário do desencanto

Nunca houve um passado, beibe, nem que quando eu jurava que o que eu estava vivendo era real. Nada. Alicercei essa história maluca no nada, e no nada ela se apoiou enquanto foi possível.

Hoje eu mal me lembro das suas belas mãos, do seu nariz (ah, o seu nariz), da sua gargalhada, quando você fechava (fecha ainda?) os olhos, jogava a cabeça para trás e me fazia estremecer.

Eu queria fazer você rir, eu queria fazer você sonhar, eu queria. Eu quero.

Mas daí, abençoada por essa nominável necessidade de sobreviver, calço meus tênis verdes, compro ração para os peixes, pago a conta da tevê a cabo e quase me esqueço do que quero, do que quis. E desse passado todo, que nunca existiu e que ocupa tanto espaço no meu carro.



Escrito por Fal Vitiello de Azevedo às 17h58
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   Brincadeira de Letras

   brinquei com doze letras
   três vogais, três consoantes
   o incomum se aglutina
   na quarta e na quinta
   o resto é espelho
   três vogais, três consoantes
   dançam sobre o papel
   numa brincadeira de letras



Escrito por Sergio Fonseca às 02h29
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Fome

 
numa noite sem lua
deitei meus olhos nos teus
da tua boca
distância alguma

somos febre
e essa fome
que não cessa



Escrito por Sergio Fonseca às 22h23
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Breve Diário do Desencanto

 

Jantei bolachinhas barulhentas barradas de requeijão e tédio, lendo suas palavras, as reais e as imaginárias.

Não doeu, mas, sei lá, tem tanta coisa que não dói e mesmo assim mata, né não?



Escrito por Fal Vitiello de Azevedo às 21h35
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Beve Diário do Desencanto

Como se a trilha sonora da vida fosse feita pela Gloria Gaynor, como se meus passos fossem ditados pelo moço do horóscopo, como se houvesse tulipas na minha bandeja de café da manhã. Ai meu deus, hahaha, como eu tivesse bandeja de café da manhã, já que estamos falando nisso. Não tenho direito a tanta perfeição, tanta felicidade, e quando me lembro disso, peço pra Gloria cantar mais baixo.



Escrito por Fal Vitiello de Azevedo às 21h10
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Mãe


Se num pesadelo,eu acordar assustado, sua mão não virá acariciar-me
Não.
Mas sua alma certamente virá em meu socorro  tentando abrandar minha ansiedade até que cesse a disritmia.
Não lhe comprarei presentes caros hoje.
Uma rosa basta.
Desde de que nela deposite todo meu amor.
E de qualquer lugar a dedique.
Não terei seu largo e franco sorriso, que  o tenho guardado na lembrança
E seu amor,  que o tive por toda vida e até hoje é uma chama acesa no centro do coração
Sei que os anjos que te rodeiam estão felizes hoje.
Como fui eu feliz um dia.
Mãe, a você,
uma rosa com muito amor.

Recados:

A todas as mães: que amem seus filhos

A todos os filhos: que cultuem o amor a suas mães e a ela dediquem cada segundo de sua existência...

 

 

 



Escrito por Nelson Natalino às 11h27
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O Grande Livro Doente

Memorial de Aires não é considerado um dos principais romances de Machado de Assis. A maioria fica com Dom Casmurro, Brás Cubas, Quincas Borba e com a inacreditável perfeição dos contos. Até compreendo, mas, apesar disto, prefiro o Memorial a todos. Provavelmente estou errado, deve tratar-se de simples idiossincrasia; deste modo, para me auxiliar neste momento difícil, vou chamar  - surpreendemente - o depoimento do cineasta François Truffaut.

Truffaut criou a categoria dos Grandes Filmes Doentes. A definição deste tipo de filmes está no parágrafo a seguir e reparem como ela serve para o Memorial. Peço-vos que troquem as palavras relativas ao cinema por outras relativas à literatura. Por exemplo, troquem filme por livro, diretor por escritor, cinefilia por bibliofilia ou bibliofagia, etc. Com a palavra, o diretor que amava os livros e um de meus heróis neste mundo, François Truffaut:

<i>"Abro um parêntese para definir rapidamente o que chamo de um "grande filme doente". Não é senão um obra-prima abortada, um empreendimento ambicioso que sofreu erros de percurso. (...) Esta noção só pode aplicar-se, evidentemente, a diretores muito bons, àqueles que, em outras circunstâncias, demonstraram que podem atingir a perfeição. Um certo grau de cinefilia  encoraja, por vezes, a preferir, na obra de um diretor, seu grande filme doente à sua obra-prima incontestada! (...) Se se aceita a idéia de que uma execução perfeita chega, na maior parte das vezes, a dissimular as intenções, admitir-se-á que os grandes filmes doentes deixam transparecer mais cruamente sua razão de ser. (...) Diria, enfim, que o "grande filme doente" sofre geralmente de um extravasamento de sinceridade, o que paradoxalmente o torna mais claro para os aficionados e mais obscuro para o público, levado a engolir misturas cuja dosagem privilegia o ardil de preferência à confissão direta."

Trecho da crítica de Truffaut sobre o filme Marnie - Confissões de uma Ladra, de Alfred Hitchcock. Retirado de Hitchcock / Truffaut - Entrevistas (Ed. Brasiliense - 1986)</i>

O Memorial não é isto mesmo? Não é ele um Grande Livro Doente? O ex-diplomata Aires é, certamente, o próprio Machado sexagenário, um viúvo tranqüilo, irônico e pessimista a gozar sua aposentadoria e a escrever pequenos acontecimentos em seu diário. Nada de romanesco deverá alterar sua existência e ele se compraz na companhia de seus velhos amigos e na observação dos jovens. O ambiente do livro é o mesmo de suas crônicas, suas opiniões pessoais ali estão, até a relativa vergonha de sentir-se atraído por uma jovem viúva ali está, ao lado do bom senso que o faz aconselhá-la a um casamento com um jovem. Trata-se de um calmo "extravasamento de sinceridade", escrito por um artista que domina inteiramente seus meios. Porém... O livro é praticamente sem ação, move-se a passos de tartaruga, e seu verdadeiro personagem é o texto - uma notável demonstração de virtuosismo literário talvez só repetida por Henry James. Pode ser que esta quase imobilidade e as repetidas descrições de gentis saraus tenham afastado o público do livro, mas não afastou os loucos por Machado.

Para terminar, um recado especial do mestre para os blogueiros:

<i> Em verdade, dá certo gosto deitar ao papel coisas que querem sair da cabeça, por via da memória ou da reflexão.

Machado de Assis, Memorial de Aires</i>



Escrito por Milton Ribeiro às 10h06
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Caros amigos do BdP

Desculpem a minha ausência, forçada por motivos profissionais. Ontem voltei ao Sinaleiro e hoje volto aqui. Li nos comentários a reclamação e reinvidicação muito justa do nosso amigo Sergio Fonseca  e já providenciei os link dos ilustradores no template. Nãso tenho o e-mail dos ilustradores os que me impede de adicioná-los para postar. Aqueles que assim o desejarem, me mandem um e-mail e eu providenciarei a inclusão.

Baitabraço.



Escrito por Nelson Natalino às 09h42
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Breve Diário do Desencanto

A Ana inda me disse que eu devia ter uma saída leão-da-montanha (saídaaaaaaaaaa, pela direita!), só pro caso de dar tudo errado.

Mas quilida, vc acha que isso aqui é o que?

Tudo isto que você vê, e boa parte do que você não vê, é um enorme plano B, amor.



Escrito por Fal Vitiello de Azevedo às 13h39
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Breve diário do desencanto

 
Fui eu que não entendi que era uma despedida. Os sinais estavam todos ali, mas tenho talento em para não enxergar o visível, é um dom. Acendi meu cigarro no seu, deixei você pagar a conta e fui pegar meu táxi, entendendo e não entendendo, sentindo e não sentindo, querendo, querendo, querendo. Eu sabia. Mas eu não sabia, entende?


Escrito por Fal Vitiello de Azevedo às 10h30
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Mergulho.

Vou desnudando em palavras minhas intersecções, vou te dando a conhecer meus paradoxos, meus métodos pouco ortodoxos, meus plexos, meus senões. Vou engendrando um esculpir de mim mesma, transparências das minhas abstratas aberrações do de dentro e vou te oferecendo aos olhos, cuidadosa e mansa, minhas maldades e meandros, minhas fendas e escafandros, meus gostos incomuns. Para ti faço versos submersos que escapam pelo avesso e encontram no cristal uma forma revolta de carne vibrando e pedem num sussurro que encontres teu próprio rosto no espelho do fundo.

Imagem de David Doubilet 



Escrito por Ticcia às 08h17
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Prefácio.

Instalou-se um tempo de inquietude e desassossego e vieram besouros a passear por meu vestido. Tudo é móvel sobre a estampa azul infestada de ansiedade, tudo é de uma latência gotejante e provocativa e sei que em algum lugar o que há de ser já é, mas ainda não veio ao meu encontro. Sou uma menina em frente ao colégio, esquecida no frio depois do horário, mas tenho a improvável certeza que o caminhão do circo está prestes a chegar para me apanhar. Sempre tive essa mania de cultivar estrelas do lado de dentro dos olhos, mesmo que elas sejam mais de céu que de lágrima, mesmo que ninguém mais as veja além de mim. Aprendi a sentir o cheiro bom da brotação que ainda não ascendeu da terra e poderá ser sepultada pelo estio que não termina, porque a felicidade também está no prefácio das coisas.

Imagem de Cris Carriconde 



Escrito por Ticcia às 08h14
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